Futebol: Reencontrando a aldeia

Posted on Feb 18 2013 - 2:04pm by cristina.castillo@pannacottagroup.com

Em 2006, quando o América foi vice-campeão da Taça Guanabara, vítima de um terrível erro do juiz, e o Madureira foi campeão da Taça Rio, perdendo a finalíssima do estadual carioca para o Botafogo, eu pensei que os estaduais tinham solução. Botafogo e América no Maracanã parecia saído direto de uma gravação do Canal 100, deixando saudosos até mesmo aqueles que nunca ouviram o “Que bonito é” orquestrado, anunciando as jogadas e as imagens maravilhosas em preto e branco nas grandes telas. Naquele ano, pensei que, mesmo em meio à globalização, o rio que corre na aldeia sempre seria mais limpo, refrescante e nunca perderia sua importância.

Sempre gostei dos times de bairro tradicionais. América, Bangu, Bonsucesso, Madureira, Portuguesa Carioca, São Cristóvão, Olaria, Juventus, Nacional, Ferroviário etc. Todos carregam consigo histórias tradicionais, sonhos de grandeza, conquistas e até culturas ancestrais. Em Buenos Aires, cada bairro tem seu time e, mesmo que alguns tenham extrapolado e muito os limites de suas ruas e quarteirões, guardam com carinho a sua origem, sempre exaltada pelos torcedores. Para aquele que torce pelo San Lorenzo, nada mais importante que vencer o Huracán, o rival vizinho. Não importa que o Boca seja muito maior. O Huracán frequenta a mesma padaria.  O torcedor do River orgulha-se de ter enriquecido e deixado para trás sua origem portuária, no antigo e pobre bairro La Boca, que seu maior rival estampa com orgulho. Racing e Independiente são vizinhos em Avellaneda. Estádios imensos, separados por uma esquina. Para os torcedores do Ferro Carril tão ruim quanto estar na segunda divisão é não poder enfrentar o Velez, maior rival.

montes claros futebol

Time de futebol de Montes Claros

A Argentina é um país menor, economicamente concentrado em sua capital. Se lá os times de bairro ainda sobrevivem, isso passa longe da nossa realidade. E um dos principais algozes dos nossos pequenos, exatamente o campeonato estadual, que poderia salvá-los, agoniza a cada ano, cada vez mais desinteressante, monótono e previsível. Esses torneios, mal organizados e pessimamente promovidos, estão matando lentamente os tradicionais pequenos, que não têm empresários interesseiros para custear todo o seu futebol e ficar com toda a grana.

Em 2003, quando o calendário do futebol brasileiro foi reformulado, os estaduais se estenderam até o final de março. Atualmente, eles já ocupam metade do ano, chegando a maio. Com estádios vazios, mas munidos com a receita da TV, os grandes clubes aceitam essa aberração no calendário, mesmo com o desinteresse de seus torcedores, enquanto muitos dos pequenos se preparam para apenas cinco meses de atividade anual, com alguma esperança de se classificar para a deficitária e sucateada Série D, arcar com as despesas desse campeonato, aumentar absurdamente suas dívidas, e, quem sabe, começar uma nova vida na Série C.

Torcida de San Lorenzo, Buenos Aires, esportes

Torcida do San Lorenzo, Buenos Aires

Não há futuro assim. O banquete dos grandes já não é o mesmo dos pequenos. A disparidade técnica, de estrutura, de recursos e de receita é absurda. E óbvio que não serão os empresários que salvarão os menores. O Brasil precisa reestruturar mais uma vez o seu calendário, promovendo campeonatos que permitam aos pequenos jogarem por todo o ano. Estaduais regionalizados, viáveis, paralelos às competições nacionais, bem promovidos, trazendo, assim, o público de volta para os pequenos estádios em partidas, em tese, livres da grande violência. Seria o reencontro com a aldeia, com a essência do esporte. Com o interesse pequeno, menos megalomaníaco e pragmático. Com o bairro, com a pequena cidade do interior. Isso é o serviço da CBF. Muito mais que realizar amistosos para a sua seleção. Tem que colocar a mão no bolso. Uma confederação deveria, a princípio, zelar pelos seus confederados e promover o desenvolvimento do esporte no país. Não dar a eles os restos dos gigantes quando eles poderiam desfrutar de outro jantar.

O Juventus, tradicional clube da Mooca, em São Paulo, jogou nesta quarta-feira para 539 torcedores, com renda de 6.500 reais. À tarde, porque o pequeno estádio da Rua Javari não tem refletores. Torcedores jovens em pé, tocando seus instrumentos e subindo no alambrado. Futebol em seu estado puro, sem marketing, sem TV, sem tantos interesses. Claro que poderia ter mais conforto, público e estrutura. Mas com que dinheiro? No mundo do futebol moderno, higienizado, frio, caro e insensível, com estádios pomposos e para poucos, qual o futuro de um ambiente assim? Apenas a memória de poucos, se continuarmos no caminho que estamos.

Rua Javari, na Mooca, futebol

Rua Javari, na Mooca – resistência ao “futebol moderno”. No cenário atual, até quando?