Inimigos ou convidados em 2014?

Posted on Feb 7 2013 - 11:26am by cristina.castillo@pannacottagroup.com

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Recentemente, o recém-criado mascote da Copa do Mundo de 2014, o simpático tatu-bola, que será premiado com os terríveis nomes Amijubi, Zuzeco ou Fuleco, escolhidos pela FIFA, foi duramente atacado em Porto Alegre, São Paulo e Curitiba. O consenso é que os agressores são manifestantes contrários aos efeitos do mundial no país, as decisões governamentais, os financiamentos polêmicos e as mudanças urbanas de grande impacto social. O tatuzinho é só um bode-expiatório. As discussões sobre verbas públicas e se sediar o mundial era prioridade no Brasil, com tantas outras carências, já foram pauta de inúmeros programas de TV, rádio e artigos. Porém, a atitude levanta indiretamente um ponto pouco comentado no país, deixando dúvidas se o brasileiro, enquanto torcida, entende o que de fato é receber uma Copa do Mundo.

Estive em dois mundiais como expectador. Em 2006, na Alemanha, viajei por mais de 20 cidades em 20 dias, vi dois jogos da seleção brasileira, contra Japão, na primeira fase, e Gana nas oitavas, além de um bom França e Togo, baratinho e pouco concorrido. Quando o Brasil perdeu para a França, nas quartas, eu estava em um bar com brasileiros, franceses e alemães, porque, logicamente, recusei-me a pagar 750 euros no ingresso. Perdi o show de Zidane, mas viajei tranquilo até o dia da final em Berlim. Quando a Alemanha foi eliminada nas semifinais pela Itália, estava em Munique, assistindo o jogo na Fan Fest montada no pátio do antigo e lindo Estádio Olímpico. Vi a surpreendente festa dos italianos na Alemanha, com buzinaço, cantoria e provocação. Não consegui conceber uma cena como aquela no Brasil. Imaginem a Argentina ou qualquer seleção eliminando o Brasil em 2014 e sua torcida fazendo uma livre e espontânea festa nas ruas das nossas cidades. Possível?

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Em 2010 eu trabalhava na Band e viajei a convite dela para a África do Sul. A estadia de apenas 8 dias foi curta, mas suficiente para me encantar com o povo local e sentir de perto o clima da copa. Vi no estádio Brasil vs Portugal, um sofrível 0 a 0, e Brasil 3 vs 0 Chile, em Johanesburgo, no lendário estádio de rugby Ellis Park. O mesmo em que Mandela, logo após finalmente assumir a presidência e acabar com o Apartheid, assistiu sua seleção ser campeã mundial de rugby em 1995, sobre a imbatível Nova Zelândia. Neste local histórico, além de constatar que a maioria dos estádios brasileiros não precisava da imensa e caríssima reforma que estão passando, testemunhei uma cena emblemática para o meu receio sobre 2014. A torcida chilena era pouco numerosa, mas bem entusiasmada. É bem pouco provável que eles achassem que realmente iriam passar pelo Brasil. Na verdade, o Chile muitas vezes é goleado por nós, inclusive em Copas, pois não abre mão de jogar no ataque. Mas os chilenos não paravam de cantar. Só o fizeram após as inúmeras ameaças feitas por brasileiros chegarem quase às vias de fato.

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Curioso que os nossos irmãos sul-americanos nunca foram rivais esportivos consideráveis. Nunca representaram qualquer ameaça, ainda que econômica, militar ou política. Então, qual o motivo de uma reação tão exacerbada contra a torcida chilena? Eram tantos xingamentos que mesmo os sul-africanos presentes no estádio não conseguiam entender. Afinal, se o objetivo era silenciá-los, porque não fazer isso com cânticos a favor da seleção de Dunga? Os brasileiros estavam em maior número e ainda contavam com o apoio dos torcedores locais.

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Em duas Copas do Mundo, tendo a oportunidade de vivenciá-las como poucos jornalistas tiveram, dentro das torcidas, percebi que o futebol é apenas um detalhe, uma desculpa para unir várias nações em festa. Brigas ocorrem, mas confraternizações são muito mais numerosas. Os chilenos no Ellis Park deveriam ser abraçados e, ao lado deles, faríamos a festa, mesmo após a sua derrota, pois o importante era que ambos estavam na África do Sul curtindo o mundial, tendo o futebol como uma brilhante desculpa. E não adianta argumentar que os brasileiros agiram (ou agem) assim porque são mais apaixonados pelo esporte que os demais. Não são. Se fossem, cantavam para incentivar sua seleção, como fazem ingleses, argentinos, franceses, alemães, uruguaios e chilenos. Brasileiro, aliás, gosta mesmo é do seu clube e ali não era Flamengo e Vasco, Corinthians e Palmeiras, Atlético e Cruzeiro, Gre-Nal, Ba-Vi. Era um “simples” Brasil e Chile. Copa do Mundo. Como dito no slogan de 2006, “hora de fazer amigos”. Agir daquela maneira não é ser apaixonado por futebol. É ser estúpido. E esta estupidez pode ser uma das grandes vilãs em 2014. Os visitantes serão vistos como inimigos ou convidados?

Os alemães foram excepcionais anfitriões em sua copa. Fizeram de tudo para apagar a sua má imagem com parte do público e foram extremamente calorosos, simpáticos e agradáveis. Deixaram, inclusive, os italianos fazerem uma grande festa em seu quintal. O sul-africano não precisava de tanto esforço, mas abraçou o mundo em seu país sofrido. E o que nós vamos mostrar em 2014? Tomara que algo melhor que o tatu-bola tem recebido.

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